Dinamene

Eu tenho uma irmã com alma de vento. Os seus cabelos claros, têm reflexos esverdeados nos dias em que se sente mais selvagem.
Tem olhos de alma antiga e a serenidade nos traços.
Tem braços de mãe, daqueles em que descansamos com a certeza de que a tempestade não entra. Assim é para os filhos… e para o mundo inteiro.
Ela é tranquila, conhece o poder do tempo e crê – inabalavelmente – que a vida trará sempre coisas boas, que todos têm um fundo brilhante e que, em caso de dúvida, o que tem a fazer é amar. Porém, a sua alma de vento leva-a em viagens, emoções, desatinos e devaneios. E escreve. Escreve a vida em contos perfumadas de todos os dias.
É a minha irmã com alma de vento. E ela não o nota, mas eu conheço bem as suas tempestades, só pelos reflexos esverdeados dos seus cabelos.

(Re)escrever-me

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Esta quarentena onde me meti e que se entranhou em mim guarda, nestes últimos dias, um sabor doce, uma espécie de mensagem sussurrada pelo vento. Mal a ouço, não tem nitidez suficiente para se tornar numa pintura. É um sentimento, um arrepio na pele, um estado de espírito que estacionou aqui, pertinho do coração.

Como me (re)compor? Como me reescrever, para além dos tempos, quando me fascino e surpreendo com o que descubro neste novo eu, que não é assim tão diferente, mas já em nada é igual?

Há um silêncio novo, cá dentro. Que guarda pedaços de solidão com reverência e gratidão. Que absorve caminho e aprendizagem compondo peças de um puzzle. Que se ri sozinho, porque lhe apetece. Que desfruta do tempo e dos tempos.

Há uma forma mais intensa de saborear café e a vida. Mas também mais suave.

Há mais possibilidade e mais quietude. Há permissão para experienciar raiva e dizer palavrões. E para mudar de registo no instante a seguir. Há um novo olhar sobre o amor e o mistério. Menos fantasiado. E não menos sensual por isso.

Há uma sensação de “está certo”, ainda que no meio de tudo o que está errado. Ganhei o direito de estar feliz, mesmo quando não estou.

E nada disto importa, porque “isto também passará.” Mas também não me importo.

Por agora, respeito os meus passos. E isso chega-me.

A vida ama-me

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Há dias em que o sentimos. Seja por aquele despertar dormente de leveza. Seja porque os ritmos decorrem como os pedi, ou sonhei.

Há dias em que nos sentimos parte de cada ramo de árvore. Em que o sabor da comida é mais intenso.

Há dias em que a tensão é tanta que o corpo se contorce em dores. E, num ápice, uma reviravolta transforma tudo em sorriso, gratidão e oportunidade.

Há dias em que me escuto e respeito. Encontro cada poro de tensão e medo. Ouço-me soluçar de memória e dor e anseio. E me abraço tão profundamente que me embalo. E a vida embala-me.

Há dias em que me lembro porque amo tanto cada inspiração desta existência e quanto amor habita as minhas células.

E ouço uma canção de amor no sussurro do vento…

(A caminhar para o dia 24…)

Os tempos do tempo

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Estes últimos dias mostram-se incertos, cheios de perguntas e névoa. Há um baile entre o Mistério e a rotina, entre o desalento e a possibilidade, entre o “azar” e talvez um recomeço que não permite meios termos…. e eu que sou a mulher das relativizações…

Custam-me as mesmas curvas do passeio, o observar do que não muda, ainda que algo mude. Custa-me a falta de fé ou a força de vontade, tanto quanto me custa a falta de compaixão por tudo isso.

Ainda assim, louvo profundamente os dias de consciência em que caminho. As lágrimas de comoção ou as tristezas do que (ainda) não entendo. As risadas. As compreensões de tanto que me separa da última vez que percorri estes passos de 40 dias.

Entendo que há uma nova forma de ver as coisas e, se antes era uma hipótese, agora é uma escolha. E por vezes esqueço-me de escolher.

Preciso de respeitar o tempo. O tempo do tempo. Criá-lo, desenhá-lo, dançar com ele. O tempo que passa e leva na brisa tudo o que não escolhi. O desperdício de todas as vezes em que não me permito ser quem sou.

Levo comigo aquilo que desejo encaixar no tempo e na minha vida. Cada vez mais claro. A cada dia mais vivo. Resta-me pura e simplesmente vivê-lo.