Paraíso…

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Acabei de num livro, acerca de uma infância no Algarve: “Declaro que conheci o Paraíso, quando o paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocados, e os homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava.”

De imediato senti vontade de escrevinhar “E eu também”.

E por segundos que soaram a eternidade, rebolei nas dunas e entretive-me a fazer castelos para as pobres carochas que me caiam nas mãos; fui pescar na ria com uma cana pequenina, feita para mim pelo meu avô. Não sei o que é feito dela, mas como regozijava de alegria quando sentia sob as minhas mãos a cana estremecer e ser puxada para a água. O meu avô, com a sua paciência infinita, lá me ajudava a tirar o peixe que eu insistia em não deixar sair de vista, pois tinha de ser aquele que eu ia comer.

Vi-me a correr em bando, desgrenhada e descalça, entre o abafado calor, a maresia e a areia escaldante nos pés. Meti-me debaixo dos barcos que os pescadores voltavam na areia, e onde passávamos tardes inteiras a contar estórias, e a inventar tantas outras.

E havia as noites…

Calçavam-se os sapatos, por fim. Jogávamos às escondidas e valia tudo. Ou sentávamos-nos no muro e conversávamos, como gente grande.

Os adultos iam-nos jogando um olhinho, enquanto se sentavam à fresquinha, sinónimo de trazer as cadeiras cá para fora e ficar à conversa.

Era um Verão maior. Um verão que durava mesmo o verão inteiro. E que parecia uma vida. Um verão que, à noite, era sempre magicamente, esplendorosamente, estrelado.

Não era preciso muito para se ter uma infância feliz.

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