Dias de luz

Moinhos

Hoje despertei com a plenitude na alma. Sabe bem um dia fora do tempo e da rotina.

Um dia para organizar, arrumar, encontrar escritos antigos e que me trouxeram de volta vários eu’s, de tantos momentos e diferentes formas. Formas à parte, revi-me nos mesmos valores e na mesma essência. A parte imutável em mim sempre soube quem sou e o que estou aqui a fazer.

Organizar livros e cadernos. Numa manta no chão, a um canto do escritório, a minha filha mais nova brincava com as bonecas e a sua vozinha alegre e profundamente distraída pelo seu mundo interno eram o meu ruído de fundo. O sol entrava e aquecia-nos o corpo e a alma.

Às vezes, é preciso muito pouco para se ser muito feliz.

Às vezes, aquilo que soa a importante lá fora parecem os gigantes de D. Quixote… aqui dentro de mim, neste dia perfeito, o que se passa lá fora pareciam-me somente moinhos.

E cá dentro está melhor….

Anúncios

Para dentro…

drink coffee

Hoje o café quente chegou-me em conforto de um galão, mais do que vicio. A humidade nos ossos apela-me à interiorização, pede que volte logo para casa e para dentro.

A madrugada sussurra-me que é tempo de trocar a esplanada pela lareira, os batidos pelos chás de ervas e a luminosidade dos dias pela fertilidade do silêncio.

E a manhã assegura-me com o mesmo sentimento. E gosto do dourado das ruas, das echarpes, da roupa confortável, do chocolate quente e das tardes de leitura com a chuva a bater nos vidros.

O outono entranha-se-me no corpo…

Sabor a eternidade

castanhas

As minhas são cozidas… cheias de erva doce e, por vezes, um pau de canela.

Eu sei que é o cheiro delas assadas que trás a memória de Outono e o quente no frio e o aconchego… e gosto e concordo e aplaudo… 🙂

Mas as castanhas cozidas, adocicadas e a desfazerem-se nos dedos e nas unhas doridas e tanto descascar são a minha forma de outono. O aconchego dos dias frios e escuros, da panela cheia posta em cima de uma mesa de madeira, com os adultos a beberem água-pé enquanto eu e os meus primos aproveitávamos o tempo juntos para as conversas e as brincadeiras.

Hoje em dia sou eu que as cozo para as minhas filhas. e, enquanto o cheiro de erva-doce me invade a cozinha e os sentidos, trazendo um cheiro de eternidade, conversa-se de coisas de mulher. Saboreia-se um copo de vinho tinto. E, ainda que de outra forma, refaz-se a tradição.

Porque a tradição é isso. Coisas com sabor a eternidade…