Nonsense, ou os dias de pernas para o ar

cafe

As últimas horas têm sido de um nível de absurdo que vale a pena descrever. Ou simplesmente rir. Quem sabe, ambos…

… desde que cheguei a Espanha sinto que entrei numa realidade alternativa, num mundo paralelo onde o nonsense é Rei e eu… claro está, uma distinta Princesa do não sentido. Se é que isto faz algum…

A manhã de ontem começou bem, com o arrumar das últimas coisitas para a viagem, pc, carregador, coisas de higiene, uma muda de roupa para o dia seguinte… “que raios? como é que uma mala para 36 horas pesa tanto como as que faço para 5 dias?” Mas assim é, de facto.

Boleia divertida para o Aeroporto, brincando com as tranças da minha amiga. O marido chamava-lhe Heidi. Eu discordava completamente, pois Gretchen assentava-lhe tão bem…

O café no aeroporto, forte, amargo e quente. Que bem me soube. Desde que larguei o café como vício, a cada vez que bebo um, tenho uma esperança enorme que seja perfeito e reconfortante. Foi.

E a partir daí começou toda a aventura.

O avião daquela companhia, conforme me lembrava de outros anos, parecia a Carreira dos subúrbios que ia de Almada para a Costa, passando pela Trafaria e conseguindo apanhar todos os buracos da estrada.

No céu não há buracos… só os negros, aparentemente. Mas aquele aviãozito, só com dois lugares de cada lado, conseguiu apanhar toda a turbulência existente,  ao ponto de me ter recordado porque é que não ando de montanha russa. Saí em Madrid aos tropeções, enjoada e com uma dor de cabeça que não se aguentava.

Apanhei o metro e segui, encostada à mala e a brincar com o telemóvel. Apanhei um daqueles senhores simpáticos, que acham que as mulheres gostam de ser abordadas no metro e, mesmo com um olhar 39 e a indiferença total, mantém a motivação e a confiança que – penso eu – lhes daria um sorriso convidativo. Que, definitivamente, eu não dei. Ainda por cima, falava em português… ou seja, tive o “desprivilégio” de lhe entender todas as palavras.

Saí para apanhar o comboio e cheguei à estação no momento em que o meu comboio estava a sair. Mais 40m de espera. Continuei a brincar com o telemóvel. E não é que o príncipe absolutamente desencatado continuava ali?

40m depois, vejo no ecrã que o meu comboio vai chegar num minuto.

“Finalmente. Que bom que está a chegar. Não só vou chegar a horas como me vou livrar deste traste que está para aqui.”

E enquanto tinha estes profundos e sublimes pensamentos, perdi-me sabe Deus onde. E dei-me conta de que me tinha perdido quando as portas do comboio fecharam. Perdi o comboio enquanto esperava por ele!!!!!

Decidi que era fome e fui comer… uma sandes daquelas fantásticas, que é de algo que acaba por ser uma das únicas palavras espanholas que não sei o significado. Não faz mal, força, estamos aqui para arriscar. E arrisquei, porque também não consegui distinguir a que é que sabia. Comi e calei, literalmente.

E 40m depois, finalmente apanhei o comboio. Eu e o príncipe desencatado, que deve ter decidido ir comigo para qualquer lado, pois já tinham passado – 2 vezes – todos os comboios possíveis que passavam naquela linha.

Finalmente saí. O stalker decidiu ficar no comboio. É compreensível. Las Zorreras não é definitivamente uma alternativa para passear.

Respirei fundo, assim que a porta fechou, e segui o meu caminho.

Reunião de burocracias, necessárias mas fatigantes até aos ossos e a marcação de 4 reuniões para o dia seguinte. Fantástico. Tudo antes das 16h, pois parece que ainda tenho um avião para apanhar hoje. A carreira nº2.

Uma caminhada de 2 horas, com um pôr do sol magnífico, uma vista de montanhas com neve e uma lua brilhante que despontava. E encontrei ali a serenidade e a alegria.

Ainda bem… porque a insónia instalou-se assim que me meti na cama e, com duas horas de sono, só me dá vontade de rir – e também de chorar – ao pensar nas, ainda, três reuniões que me faltam…

Percebe-se que acordei cheia de atenção plena.

Abro o frigorífico para tirar o boião de iogurte a meter nos cereais e, depois de o ter feito, apercebo-me de que era queijo philadelphia. NUNCA tentem comer cereais com queijo philadelphia. É um conselho sábio e experiente. Acreditem…

Duas chávenas de café depois aqui estou a contar a estória. E a esperar chegar a casa são e salva. 🙂