Abraçar-me

 

Abraçar-me shugem ser um bom dia. Sem ser o dia certo. Sem ter o que celebrar.

Nem sempre o consigo e muitas vezes nem me lembro de o fazer. Fica a zanga interna. A sensação do “podia ter feito melhor”. O dia que teve altos, mas cujos baixos apagaram a luz e nada deixaram.

Geralmente fica o discurso interno sobre as mil coisas que eu sabia fazer diferente. Ou as escolhas pelas quais não optei. Ainda o escuto, em sussurros, em apertos e pequenas descamações na pele e nos espaços vazios da alma. Podia escutar mais… ou evadir-me numa escapadela mental que me permitisse estar longe de mim até as vozes se calarem.

Só que, por um acaso somente, recordei-me de quem sou. E de onde estou. E do que quero. Um só instante que me permitiu abrir-me os braços e guardar-me dentro. A voz mais sábia que me sussurrou: eu sei quem és. E ser quem és chega. E amo-te, não importa o resto. Estou aqui para ti.

E chegou-me. O abraço que me dei e poderia não ter dado. As palavras que me disse e poderia não ter dito. A escolha de aceitar não ser perfeita. E ficar comigo.

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Daquilo que é antigo

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A história evoca-me estória. Desde sempre, ainda antes disto se ter tornado consciente. Gosto de ouvir os anciãos contar pedaços da sua existência, recordando os quilómetros que percorriam a pé para chegar à escola, quando iam à escola. Ou as viagens de Beja a Lisboa, montados num burro. Ou a apanha do milho, entre fogueiras noturnas e beijos roubados ao luar. Beijos no rosto, que os beijos na boca eram reservados para assuntos sérios.

Gosto de estórias épicas e míticas, de símbolos e grandes demandas.

E gosto de vilas e cidades velhas. Antigas. Ruelas com calçada desconjuntada, cheias de sussurros por entre os meus passos, estradas de terra batida e paisagem a perder de vista. Gosto de adros de igrejas pequeninas. De janelas grandes e cheias de estória. De arcadas, de portas ogivais, de fachadas trabalhadas, de canteiros floridos. Gosto de anciãs de lenço na cabeça, sentadas em cadeiras de vime, à porta de casa. De nomes de ruas perfeitas. Rua dos Nobres. Largo do Paço da Rainha. Rua dos Correeiros. Terreiro do Paço.

Caminhar numa cidade antiga é evocar em mim algo que vai muito além das palavras. Sinto-me antiga também, envolta em memórias que podem ser minhas, da própria cidade, ou somente da existência em si. Caminhar numa rua de calçada antiga, com casas caiadas a branco com cunhais de portas e janelas pintadas a azul ou amarelo, é escutar a eternidade desse lugar, sentindo os passos de tantos que caminharam antes de mim. Ouvir-lhes o som das vestes compridas, sentir o odor do petróleo para os candeeiros, do peixe e da fruta nos mercados.

E há outro aroma de eternidade, que só as antigas vilas sustêm. O cheiro do entardecer, numa tarde de Verão, quando o mundo parece parar e o bater do nosso coração pouco difere do bater do coração da própria vida.

Paraíso…

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Acabei de num livro, acerca de uma infância no Algarve: “Declaro que conheci o Paraíso, quando o paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocados, e os homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava.”

De imediato senti vontade de escrevinhar “E eu também”.

E por segundos que soaram a eternidade, rebolei nas dunas e entretive-me a fazer castelos para as pobres carochas que me caiam nas mãos; fui pescar na ria com uma cana pequenina, feita para mim pelo meu avô. Não sei o que é feito dela, mas como regozijava de alegria quando sentia sob as minhas mãos a cana estremecer e ser puxada para a água. O meu avô, com a sua paciência infinita, lá me ajudava a tirar o peixe que eu insistia em não deixar sair de vista, pois tinha de ser aquele que eu ia comer.

Vi-me a correr em bando, desgrenhada e descalça, entre o abafado calor, a maresia e a areia escaldante nos pés. Meti-me debaixo dos barcos que os pescadores voltavam na areia, e onde passávamos tardes inteiras a contar estórias, e a inventar tantas outras.

E havia as noites…

Calçavam-se os sapatos, por fim. Jogávamos às escondidas e valia tudo. Ou sentávamos-nos no muro e conversávamos, como gente grande.

Os adultos iam-nos jogando um olhinho, enquanto se sentavam à fresquinha, sinónimo de trazer as cadeiras cá para fora e ficar à conversa.

Era um Verão maior. Um verão que durava mesmo o verão inteiro. E que parecia uma vida. Um verão que, à noite, era sempre magicamente, esplendorosamente, estrelado.

Não era preciso muito para se ter uma infância feliz.