Abraçar-me

 

Abraçar-me shugem ser um bom dia. Sem ser o dia certo. Sem ter o que celebrar.

Nem sempre o consigo e muitas vezes nem me lembro de o fazer. Fica a zanga interna. A sensação do “podia ter feito melhor”. O dia que teve altos, mas cujos baixos apagaram a luz e nada deixaram.

Geralmente fica o discurso interno sobre as mil coisas que eu sabia fazer diferente. Ou as escolhas pelas quais não optei. Ainda o escuto, em sussurros, em apertos e pequenas descamações na pele e nos espaços vazios da alma. Podia escutar mais… ou evadir-me numa escapadela mental que me permitisse estar longe de mim até as vozes se calarem.

Só que, por um acaso somente, recordei-me de quem sou. E de onde estou. E do que quero. Um só instante que me permitiu abrir-me os braços e guardar-me dentro. A voz mais sábia que me sussurrou: eu sei quem és. E ser quem és chega. E amo-te, não importa o resto. Estou aqui para ti.

E chegou-me. O abraço que me dei e poderia não ter dado. As palavras que me disse e poderia não ter dito. A escolha de aceitar não ser perfeita. E ficar comigo.

Quanto é o Suficiente?

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Quanto é que é o suficiente? Quando é que chega? Quando é que sentimos que é tempo de parar de procurar fora? De procurar mais? Quando é que sentimos que já chega de quantidade de medo, de sofrimento, de dificuldade (criada por nós)?

Quando é que abrimos a porta a sermos o suficiente para nós mesmos? E como o fazemos?

Uma exposição sobre a busca da felicidade e os equívocos do consumismo material e espiritual. Abordaremos a “síndrome de não ser suficientemente bom” e a adição ao perfeccionismo como enfermidade social. O círculo do medo, o valor pessoal e a escassez. A presença no agora, o poder da inteligência cardíaca e o acompanhamento a si mesmo como chaves para uma Vida com sentido.

Terça, 21 de Abril. Das 20h às 21h30. Entrada livre. Lugares limitados.

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias – Auditório Armando Guebuza, 376 Campo Grande, Lisboa, PT

Reservas: http://www.eventbrite.com/e/bilhetes-quanto-e-o-suficiente-a-conquista-da-felicidade-16577405466?aff=efbevent

40

40-h

Um número grande. Cheio. Parece idade de gente adulta.

Foi rápida a chegada, apesar de tantos trilhos emaranhados, viagens intermináveis e florestas densas e profundas. Rápida, mas ainda assim cheia de tempo e de tempos. De estórias. Umas, cheias de mim. Outras, onde nem me vejo. Mas todas minhas.

E quando me olho e penso que tenho 40 anos, quase me dá vontade de rir. Não me sinto com os 40 anos que imaginava que as pessoas tinham, quando eu tinha 20. Nem perto. Mas também não sinto com menos do que isso. Sinto-me com estes 40. Meus. Vividos e conquistados a ferro e fogo. Descobertos, semeados. E destes 40, gosto. Sou eu. São meus.

Têm a forma do meu reflexo. Dão-me permissão para brincar comigo mesma. E para me levar a sério. Deixam-me amar perdidamente e com tudo o que tenho e tudo o que sou. E não me perder de mim mesma. Levam-me ao que sou, agora, sem pensar no que posso ou não ser amanhã. E está bem, por agora.

Chego aos 40 anos com alguns ciclos a fechar, coisas novas a abrir e esta tão nova e extraordinária relação comigo mesma. Dou-me a mão, a cada passo. Em todos eles.

Não sei se “a vida começa aos 40”. Sei que eu caminho por percursos novos. E gosto das minhas pegadas.

Caminhemos…

Dia 1

IMG_0772Fui ver o mar.

É um hábito, uma necessidade, uma alegria…

O primeiro dia do ano tem esta magia própria para quem gosta de acordar cedo. Especialmente em dias como estes, frios e cheios de sol. Há uma paz e um silêncio que invadem tudo. Um sentimento de solidão muito diferente de isolamento. Estar comigo mesma…

É um silêncio cheio, lembra-me a expressão “vazio fértil”. Como um mundo parado e pronto a despertar para infinitas possibilidades. E não tenho vontade, nem preciso de o colocar em andamento. Basta-me desfrutar do instante antes do movimento.

Basta-me o sol no rosto, os meus passos desenhados na areia e os salpicos salgados que me acariciam a pele. Basta-me sentar e respirar. Não pensar em nada elaborado, somente existir. E que luxo é, permitir-me esse tempo em que me basta existir.

O ano passado não vi o mar no dia 1. O ano passado bastou-me estar viva. Acabava de sair de um ano em que tinha perdido pedaços do corpo e identidade.

O ano passado perdi certezas, ilusões, o cabelo, vitalidade, sonhos e confiança. Aprendi a caminhar cada um dos meus dias sem olhar para mais do que isso. Aprendi a ser forte quando estava frágil e a sentir-me frágil, quando já estava cansada de caminhar no deserto. Mas caminhei…

Paradoxalmente, ganhei outras certezas, humildade, rendição, amor por mim para além de tudo o que achava ter conquistado, auto-respeito, maturidade e, também, confiança. Não sei bem confiança em quê. Se em mim, se no Mistério, se nesta dança que nos leva a todos, nem sempre no ritmo que desejaríamos.,, a verdade é que quando olhamos realmente para a música, não temos como não nos render…

Entro neste ano outra mulher. Sem deixar de ser a mesma. Mais dorida… talvez. Com maior capacidade de desfrutar?Certamente. Com menos medo de arriscar? Em absoluto.

Com mais para dar e receber? Sei-o e sinto-o.

Não sei o que o ano me trará, mas dou por mim a sorrir. Gosto. Espero o melhor da vida. Assim como espero de mim o meu melhor. Não sei o que o ano me trará, mas sei o que me trago.

Trago doçura em mim. Capacidade de me suster e amparar. Silêncio interno e força. Amor e alegria. E, na verdade, tudo o resto.

Trago-me inteira.

Os tempos do tempo

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Estes últimos dias mostram-se incertos, cheios de perguntas e névoa. Há um baile entre o Mistério e a rotina, entre o desalento e a possibilidade, entre o “azar” e talvez um recomeço que não permite meios termos…. e eu que sou a mulher das relativizações…

Custam-me as mesmas curvas do passeio, o observar do que não muda, ainda que algo mude. Custa-me a falta de fé ou a força de vontade, tanto quanto me custa a falta de compaixão por tudo isso.

Ainda assim, louvo profundamente os dias de consciência em que caminho. As lágrimas de comoção ou as tristezas do que (ainda) não entendo. As risadas. As compreensões de tanto que me separa da última vez que percorri estes passos de 40 dias.

Entendo que há uma nova forma de ver as coisas e, se antes era uma hipótese, agora é uma escolha. E por vezes esqueço-me de escolher.

Preciso de respeitar o tempo. O tempo do tempo. Criá-lo, desenhá-lo, dançar com ele. O tempo que passa e leva na brisa tudo o que não escolhi. O desperdício de todas as vezes em que não me permito ser quem sou.

Levo comigo aquilo que desejo encaixar no tempo e na minha vida. Cada vez mais claro. A cada dia mais vivo. Resta-me pura e simplesmente vivê-lo.