Daquilo que é antigo

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A história evoca-me estória. Desde sempre, ainda antes disto se ter tornado consciente. Gosto de ouvir os anciãos contar pedaços da sua existência, recordando os quilómetros que percorriam a pé para chegar à escola, quando iam à escola. Ou as viagens de Beja a Lisboa, montados num burro. Ou a apanha do milho, entre fogueiras noturnas e beijos roubados ao luar. Beijos no rosto, que os beijos na boca eram reservados para assuntos sérios.

Gosto de estórias épicas e míticas, de símbolos e grandes demandas.

E gosto de vilas e cidades velhas. Antigas. Ruelas com calçada desconjuntada, cheias de sussurros por entre os meus passos, estradas de terra batida e paisagem a perder de vista. Gosto de adros de igrejas pequeninas. De janelas grandes e cheias de estória. De arcadas, de portas ogivais, de fachadas trabalhadas, de canteiros floridos. Gosto de anciãs de lenço na cabeça, sentadas em cadeiras de vime, à porta de casa. De nomes de ruas perfeitas. Rua dos Nobres. Largo do Paço da Rainha. Rua dos Correeiros. Terreiro do Paço.

Caminhar numa cidade antiga é evocar em mim algo que vai muito além das palavras. Sinto-me antiga também, envolta em memórias que podem ser minhas, da própria cidade, ou somente da existência em si. Caminhar numa rua de calçada antiga, com casas caiadas a branco com cunhais de portas e janelas pintadas a azul ou amarelo, é escutar a eternidade desse lugar, sentindo os passos de tantos que caminharam antes de mim. Ouvir-lhes o som das vestes compridas, sentir o odor do petróleo para os candeeiros, do peixe e da fruta nos mercados.

E há outro aroma de eternidade, que só as antigas vilas sustêm. O cheiro do entardecer, numa tarde de Verão, quando o mundo parece parar e o bater do nosso coração pouco difere do bater do coração da própria vida.

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