Dinamene

Eu tenho uma irmã com alma de vento. Os seus cabelos claros, têm reflexos esverdeados nos dias em que se sente mais selvagem.
Tem olhos de alma antiga e a serenidade nos traços.
Tem braços de mãe, daqueles em que descansamos com a certeza de que a tempestade não entra. Assim é para os filhos… e para o mundo inteiro.
Ela é tranquila, conhece o poder do tempo e crê – inabalavelmente – que a vida trará sempre coisas boas, que todos têm um fundo brilhante e que, em caso de dúvida, o que tem a fazer é amar. Porém, a sua alma de vento leva-a em viagens, emoções, desatinos e devaneios. E escreve. Escreve a vida em contos perfumadas de todos os dias.
É a minha irmã com alma de vento. E ela não o nota, mas eu conheço bem as suas tempestades, só pelos reflexos esverdeados dos seus cabelos.

40

40-h

Um número grande. Cheio. Parece idade de gente adulta.

Foi rápida a chegada, apesar de tantos trilhos emaranhados, viagens intermináveis e florestas densas e profundas. Rápida, mas ainda assim cheia de tempo e de tempos. De estórias. Umas, cheias de mim. Outras, onde nem me vejo. Mas todas minhas.

E quando me olho e penso que tenho 40 anos, quase me dá vontade de rir. Não me sinto com os 40 anos que imaginava que as pessoas tinham, quando eu tinha 20. Nem perto. Mas também não sinto com menos do que isso. Sinto-me com estes 40. Meus. Vividos e conquistados a ferro e fogo. Descobertos, semeados. E destes 40, gosto. Sou eu. São meus.

Têm a forma do meu reflexo. Dão-me permissão para brincar comigo mesma. E para me levar a sério. Deixam-me amar perdidamente e com tudo o que tenho e tudo o que sou. E não me perder de mim mesma. Levam-me ao que sou, agora, sem pensar no que posso ou não ser amanhã. E está bem, por agora.

Chego aos 40 anos com alguns ciclos a fechar, coisas novas a abrir e esta tão nova e extraordinária relação comigo mesma. Dou-me a mão, a cada passo. Em todos eles.

Não sei se “a vida começa aos 40”. Sei que eu caminho por percursos novos. E gosto das minhas pegadas.

Caminhemos…