Abraçar-me

 

Abraçar-me shugem ser um bom dia. Sem ser o dia certo. Sem ter o que celebrar.

Nem sempre o consigo e muitas vezes nem me lembro de o fazer. Fica a zanga interna. A sensação do “podia ter feito melhor”. O dia que teve altos, mas cujos baixos apagaram a luz e nada deixaram.

Geralmente fica o discurso interno sobre as mil coisas que eu sabia fazer diferente. Ou as escolhas pelas quais não optei. Ainda o escuto, em sussurros, em apertos e pequenas descamações na pele e nos espaços vazios da alma. Podia escutar mais… ou evadir-me numa escapadela mental que me permitisse estar longe de mim até as vozes se calarem.

Só que, por um acaso somente, recordei-me de quem sou. E de onde estou. E do que quero. Um só instante que me permitiu abrir-me os braços e guardar-me dentro. A voz mais sábia que me sussurrou: eu sei quem és. E ser quem és chega. E amo-te, não importa o resto. Estou aqui para ti.

E chegou-me. O abraço que me dei e poderia não ter dado. As palavras que me disse e poderia não ter dito. A escolha de aceitar não ser perfeita. E ficar comigo.

40

40-h

Um número grande. Cheio. Parece idade de gente adulta.

Foi rápida a chegada, apesar de tantos trilhos emaranhados, viagens intermináveis e florestas densas e profundas. Rápida, mas ainda assim cheia de tempo e de tempos. De estórias. Umas, cheias de mim. Outras, onde nem me vejo. Mas todas minhas.

E quando me olho e penso que tenho 40 anos, quase me dá vontade de rir. Não me sinto com os 40 anos que imaginava que as pessoas tinham, quando eu tinha 20. Nem perto. Mas também não sinto com menos do que isso. Sinto-me com estes 40. Meus. Vividos e conquistados a ferro e fogo. Descobertos, semeados. E destes 40, gosto. Sou eu. São meus.

Têm a forma do meu reflexo. Dão-me permissão para brincar comigo mesma. E para me levar a sério. Deixam-me amar perdidamente e com tudo o que tenho e tudo o que sou. E não me perder de mim mesma. Levam-me ao que sou, agora, sem pensar no que posso ou não ser amanhã. E está bem, por agora.

Chego aos 40 anos com alguns ciclos a fechar, coisas novas a abrir e esta tão nova e extraordinária relação comigo mesma. Dou-me a mão, a cada passo. Em todos eles.

Não sei se “a vida começa aos 40”. Sei que eu caminho por percursos novos. E gosto das minhas pegadas.

Caminhemos…

Dia 1

IMG_0772Fui ver o mar.

É um hábito, uma necessidade, uma alegria…

O primeiro dia do ano tem esta magia própria para quem gosta de acordar cedo. Especialmente em dias como estes, frios e cheios de sol. Há uma paz e um silêncio que invadem tudo. Um sentimento de solidão muito diferente de isolamento. Estar comigo mesma…

É um silêncio cheio, lembra-me a expressão “vazio fértil”. Como um mundo parado e pronto a despertar para infinitas possibilidades. E não tenho vontade, nem preciso de o colocar em andamento. Basta-me desfrutar do instante antes do movimento.

Basta-me o sol no rosto, os meus passos desenhados na areia e os salpicos salgados que me acariciam a pele. Basta-me sentar e respirar. Não pensar em nada elaborado, somente existir. E que luxo é, permitir-me esse tempo em que me basta existir.

O ano passado não vi o mar no dia 1. O ano passado bastou-me estar viva. Acabava de sair de um ano em que tinha perdido pedaços do corpo e identidade.

O ano passado perdi certezas, ilusões, o cabelo, vitalidade, sonhos e confiança. Aprendi a caminhar cada um dos meus dias sem olhar para mais do que isso. Aprendi a ser forte quando estava frágil e a sentir-me frágil, quando já estava cansada de caminhar no deserto. Mas caminhei…

Paradoxalmente, ganhei outras certezas, humildade, rendição, amor por mim para além de tudo o que achava ter conquistado, auto-respeito, maturidade e, também, confiança. Não sei bem confiança em quê. Se em mim, se no Mistério, se nesta dança que nos leva a todos, nem sempre no ritmo que desejaríamos.,, a verdade é que quando olhamos realmente para a música, não temos como não nos render…

Entro neste ano outra mulher. Sem deixar de ser a mesma. Mais dorida… talvez. Com maior capacidade de desfrutar?Certamente. Com menos medo de arriscar? Em absoluto.

Com mais para dar e receber? Sei-o e sinto-o.

Não sei o que o ano me trará, mas dou por mim a sorrir. Gosto. Espero o melhor da vida. Assim como espero de mim o meu melhor. Não sei o que o ano me trará, mas sei o que me trago.

Trago doçura em mim. Capacidade de me suster e amparar. Silêncio interno e força. Amor e alegria. E, na verdade, tudo o resto.

Trago-me inteira.

É sempre mais do que te sei dizer….

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir

Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Ás vezes só a cinza do que sobrou

Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu sei te dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

A vida ama-me

heart

Há dias em que o sentimos. Seja por aquele despertar dormente de leveza. Seja porque os ritmos decorrem como os pedi, ou sonhei.

Há dias em que nos sentimos parte de cada ramo de árvore. Em que o sabor da comida é mais intenso.

Há dias em que a tensão é tanta que o corpo se contorce em dores. E, num ápice, uma reviravolta transforma tudo em sorriso, gratidão e oportunidade.

Há dias em que me escuto e respeito. Encontro cada poro de tensão e medo. Ouço-me soluçar de memória e dor e anseio. E me abraço tão profundamente que me embalo. E a vida embala-me.

Há dias em que me lembro porque amo tanto cada inspiração desta existência e quanto amor habita as minhas células.

E ouço uma canção de amor no sussurro do vento…

(A caminhar para o dia 24…)