Dinamene

Eu tenho uma irmã com alma de vento. Os seus cabelos claros, têm reflexos esverdeados nos dias em que se sente mais selvagem.
Tem olhos de alma antiga e a serenidade nos traços.
Tem braços de mãe, daqueles em que descansamos com a certeza de que a tempestade não entra. Assim é para os filhos… e para o mundo inteiro.
Ela é tranquila, conhece o poder do tempo e crê – inabalavelmente – que a vida trará sempre coisas boas, que todos têm um fundo brilhante e que, em caso de dúvida, o que tem a fazer é amar. Porém, a sua alma de vento leva-a em viagens, emoções, desatinos e devaneios. E escreve. Escreve a vida em contos perfumadas de todos os dias.
É a minha irmã com alma de vento. E ela não o nota, mas eu conheço bem as suas tempestades, só pelos reflexos esverdeados dos seus cabelos.

Paraíso…

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Acabei de num livro, acerca de uma infância no Algarve: “Declaro que conheci o Paraíso, quando o paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocados, e os homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava.”

De imediato senti vontade de escrevinhar “E eu também”.

E por segundos que soaram a eternidade, rebolei nas dunas e entretive-me a fazer castelos para as pobres carochas que me caiam nas mãos; fui pescar na ria com uma cana pequenina, feita para mim pelo meu avô. Não sei o que é feito dela, mas como regozijava de alegria quando sentia sob as minhas mãos a cana estremecer e ser puxada para a água. O meu avô, com a sua paciência infinita, lá me ajudava a tirar o peixe que eu insistia em não deixar sair de vista, pois tinha de ser aquele que eu ia comer.

Vi-me a correr em bando, desgrenhada e descalça, entre o abafado calor, a maresia e a areia escaldante nos pés. Meti-me debaixo dos barcos que os pescadores voltavam na areia, e onde passávamos tardes inteiras a contar estórias, e a inventar tantas outras.

E havia as noites…

Calçavam-se os sapatos, por fim. Jogávamos às escondidas e valia tudo. Ou sentávamos-nos no muro e conversávamos, como gente grande.

Os adultos iam-nos jogando um olhinho, enquanto se sentavam à fresquinha, sinónimo de trazer as cadeiras cá para fora e ficar à conversa.

Era um Verão maior. Um verão que durava mesmo o verão inteiro. E que parecia uma vida. Um verão que, à noite, era sempre magicamente, esplendorosamente, estrelado.

Não era preciso muito para se ter uma infância feliz.

Aquele abraço

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Aquele abraço que me deste foi um presente no meu dia.

Entre o teu olhar, o som de surpresa e alegria e a forma como os teus braços voaram para o meu pescoço e te apertei com tanto afecto, resgatou-se tanto….

Vi nesse gesto a menina que eras, aos 17. O som da tua voz cristalina que ecoava para além de qualquer outra, quando cantavas. As caminhadas para casa, cheias de gargalhadas. A parte de trás do pavilhão da escola e conversas cheias de sonhos.

As férias de Verão e o dançar até amanhecer. Os teus desenhos e o vislumbre da tua alma, que tantas vezes se tem silenciado.

Foi um presente no meu dia. Um abraço que me trouxe o afecto que não se gastou com o tempo, o tanto que se partilha em semanas de silêncio, e a cumplicidade de quem se conhece e aceita.

Trouxe-o comigo para casa… o teu abraço. E pousei-o junto às memórias que guardo no peito.