Paraíso…

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Acabei de num livro, acerca de uma infância no Algarve: “Declaro que conheci o Paraíso, quando o paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocados, e os homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava.”

De imediato senti vontade de escrevinhar “E eu também”.

E por segundos que soaram a eternidade, rebolei nas dunas e entretive-me a fazer castelos para as pobres carochas que me caiam nas mãos; fui pescar na ria com uma cana pequenina, feita para mim pelo meu avô. Não sei o que é feito dela, mas como regozijava de alegria quando sentia sob as minhas mãos a cana estremecer e ser puxada para a água. O meu avô, com a sua paciência infinita, lá me ajudava a tirar o peixe que eu insistia em não deixar sair de vista, pois tinha de ser aquele que eu ia comer.

Vi-me a correr em bando, desgrenhada e descalça, entre o abafado calor, a maresia e a areia escaldante nos pés. Meti-me debaixo dos barcos que os pescadores voltavam na areia, e onde passávamos tardes inteiras a contar estórias, e a inventar tantas outras.

E havia as noites…

Calçavam-se os sapatos, por fim. Jogávamos às escondidas e valia tudo. Ou sentávamos-nos no muro e conversávamos, como gente grande.

Os adultos iam-nos jogando um olhinho, enquanto se sentavam à fresquinha, sinónimo de trazer as cadeiras cá para fora e ficar à conversa.

Era um Verão maior. Um verão que durava mesmo o verão inteiro. E que parecia uma vida. Um verão que, à noite, era sempre magicamente, esplendorosamente, estrelado.

Não era preciso muito para se ter uma infância feliz.

40

40-h

Um número grande. Cheio. Parece idade de gente adulta.

Foi rápida a chegada, apesar de tantos trilhos emaranhados, viagens intermináveis e florestas densas e profundas. Rápida, mas ainda assim cheia de tempo e de tempos. De estórias. Umas, cheias de mim. Outras, onde nem me vejo. Mas todas minhas.

E quando me olho e penso que tenho 40 anos, quase me dá vontade de rir. Não me sinto com os 40 anos que imaginava que as pessoas tinham, quando eu tinha 20. Nem perto. Mas também não sinto com menos do que isso. Sinto-me com estes 40. Meus. Vividos e conquistados a ferro e fogo. Descobertos, semeados. E destes 40, gosto. Sou eu. São meus.

Têm a forma do meu reflexo. Dão-me permissão para brincar comigo mesma. E para me levar a sério. Deixam-me amar perdidamente e com tudo o que tenho e tudo o que sou. E não me perder de mim mesma. Levam-me ao que sou, agora, sem pensar no que posso ou não ser amanhã. E está bem, por agora.

Chego aos 40 anos com alguns ciclos a fechar, coisas novas a abrir e esta tão nova e extraordinária relação comigo mesma. Dou-me a mão, a cada passo. Em todos eles.

Não sei se “a vida começa aos 40”. Sei que eu caminho por percursos novos. E gosto das minhas pegadas.

Caminhemos…

Dia 1

IMG_0772Fui ver o mar.

É um hábito, uma necessidade, uma alegria…

O primeiro dia do ano tem esta magia própria para quem gosta de acordar cedo. Especialmente em dias como estes, frios e cheios de sol. Há uma paz e um silêncio que invadem tudo. Um sentimento de solidão muito diferente de isolamento. Estar comigo mesma…

É um silêncio cheio, lembra-me a expressão “vazio fértil”. Como um mundo parado e pronto a despertar para infinitas possibilidades. E não tenho vontade, nem preciso de o colocar em andamento. Basta-me desfrutar do instante antes do movimento.

Basta-me o sol no rosto, os meus passos desenhados na areia e os salpicos salgados que me acariciam a pele. Basta-me sentar e respirar. Não pensar em nada elaborado, somente existir. E que luxo é, permitir-me esse tempo em que me basta existir.

O ano passado não vi o mar no dia 1. O ano passado bastou-me estar viva. Acabava de sair de um ano em que tinha perdido pedaços do corpo e identidade.

O ano passado perdi certezas, ilusões, o cabelo, vitalidade, sonhos e confiança. Aprendi a caminhar cada um dos meus dias sem olhar para mais do que isso. Aprendi a ser forte quando estava frágil e a sentir-me frágil, quando já estava cansada de caminhar no deserto. Mas caminhei…

Paradoxalmente, ganhei outras certezas, humildade, rendição, amor por mim para além de tudo o que achava ter conquistado, auto-respeito, maturidade e, também, confiança. Não sei bem confiança em quê. Se em mim, se no Mistério, se nesta dança que nos leva a todos, nem sempre no ritmo que desejaríamos.,, a verdade é que quando olhamos realmente para a música, não temos como não nos render…

Entro neste ano outra mulher. Sem deixar de ser a mesma. Mais dorida… talvez. Com maior capacidade de desfrutar?Certamente. Com menos medo de arriscar? Em absoluto.

Com mais para dar e receber? Sei-o e sinto-o.

Não sei o que o ano me trará, mas dou por mim a sorrir. Gosto. Espero o melhor da vida. Assim como espero de mim o meu melhor. Não sei o que o ano me trará, mas sei o que me trago.

Trago doçura em mim. Capacidade de me suster e amparar. Silêncio interno e força. Amor e alegria. E, na verdade, tudo o resto.

Trago-me inteira.

(Re)escrever-me

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Esta quarentena onde me meti e que se entranhou em mim guarda, nestes últimos dias, um sabor doce, uma espécie de mensagem sussurrada pelo vento. Mal a ouço, não tem nitidez suficiente para se tornar numa pintura. É um sentimento, um arrepio na pele, um estado de espírito que estacionou aqui, pertinho do coração.

Como me (re)compor? Como me reescrever, para além dos tempos, quando me fascino e surpreendo com o que descubro neste novo eu, que não é assim tão diferente, mas já em nada é igual?

Há um silêncio novo, cá dentro. Que guarda pedaços de solidão com reverência e gratidão. Que absorve caminho e aprendizagem compondo peças de um puzzle. Que se ri sozinho, porque lhe apetece. Que desfruta do tempo e dos tempos.

Há uma forma mais intensa de saborear café e a vida. Mas também mais suave.

Há mais possibilidade e mais quietude. Há permissão para experienciar raiva e dizer palavrões. E para mudar de registo no instante a seguir. Há um novo olhar sobre o amor e o mistério. Menos fantasiado. E não menos sensual por isso.

Há uma sensação de “está certo”, ainda que no meio de tudo o que está errado. Ganhei o direito de estar feliz, mesmo quando não estou.

E nada disto importa, porque “isto também passará.” Mas também não me importo.

Por agora, respeito os meus passos. E isso chega-me.

Aquele abraço

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Aquele abraço que me deste foi um presente no meu dia.

Entre o teu olhar, o som de surpresa e alegria e a forma como os teus braços voaram para o meu pescoço e te apertei com tanto afecto, resgatou-se tanto….

Vi nesse gesto a menina que eras, aos 17. O som da tua voz cristalina que ecoava para além de qualquer outra, quando cantavas. As caminhadas para casa, cheias de gargalhadas. A parte de trás do pavilhão da escola e conversas cheias de sonhos.

As férias de Verão e o dançar até amanhecer. Os teus desenhos e o vislumbre da tua alma, que tantas vezes se tem silenciado.

Foi um presente no meu dia. Um abraço que me trouxe o afecto que não se gastou com o tempo, o tanto que se partilha em semanas de silêncio, e a cumplicidade de quem se conhece e aceita.

Trouxe-o comigo para casa… o teu abraço. E pousei-o junto às memórias que guardo no peito.

É sempre mais do que te sei dizer….

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir

Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes fogo e mar, loucura e chão
Ás vezes só a cinza do que sobrou

Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu sei te dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Quando um não pode ser sim

amor

“Gritar” com alguém e ser-se recompensado em seguida? Aparentemente injusto… ou, pelo menos, paradoxal. Mas real e extraordinário.

Um arranjo que parece que não vai ser feito em tempo “legal”. Um empregado irritante e antipático que, tipo papagaio, me repetia a mesma frase vezes e vezes sem conta enquanto tentava – infrutiferamente – encontrar nos papeis que eu tinha assinado algo que corroborasse aquilo que dizia.

E um Não assertivo que veio mesmo a calhar – então não é que no dia de hoje me soube lindamente deixar claro a minha posição?

É verdade que ter-me “expressado” me deixou numa energia alegre e levíssima. E também é verdade que todas as pessoas que encontrei em seguida, nesse e noutros locais, foram de uma simpatia e delicadeza absolutas.

Um “não quero, não mereço e não admito esse tratamento”, transformou-se num Sim ao resto. A um final de dia cheio de encontros simpáticos e empáticos. A uma refeição partilhada, aconchegante e profunda. A um anoitecer de sorrisos.

O sentido de oportunidade da vida para nos deixar mensagens claras é magnífico. Quando um não se transforma num sim a mim.

E ainda pude “gritar”. Com alguém parvo! 🙂 Que bom….

Amuleto da sorte

cigana

Francisca saiu sem ser notada. Os criados continuavam na azáfama habitual de arrumar a cozinha e alguns já tinham saído ou tinham-se recolhido. O dia começava cedo e a hora do recolher seguia o mesmo rumo. Com um dos seus mais simples vestidos, uma trança nos cabelos claros e a capa de lã castanha, Francisca passara despercebida por entre os corredores, até se escapulir para o fresco da noite.

Em silêncio, caminhou até ao acampamento. Durante grande parte do ano, o chamado acampamento não passava de um amontoado de casas em pedra, construídas de propósito para os nómadas. Mas na época de calor, os viajantes chegavam nas suas carroças coloridas, cheias de tecidos, crianças e cães barulhentos. Montavam as tendas, faziam fogueiras noturnas e as terras transformavam-se numa verdadeira confusão.

Como toda a gente à sua volta, tinha sido criada com medo daquele povo estranho, sempre em viagem, com o comércio e a magia no sangue. Os padres aconselhavam-na, inclusive, a não olhar para eles. Os senhores da casa não os temiam de todo e a sua irmã, então, sempre os adorara. Talvez essa fosse a razão pela qual o cunhado lhes tivesse permitido o usufruto das terras. Não sabia quais os seus motivos e não perguntara. Quando se mudara para a casa, os nómadas há muito lá habitavam e Ana já falecera.

O cheiro de madeira queimada chegou-lhe ao nariz, ao mesmo tempo que a lufada de fumo cinzento lhe causou ardor nos olhos. Ajeitou melhor a trança, debaixo do capuz. O cabelo claro poderia dar nas vistas.

Os cânticos alegres e os batuques envolveram-na na alegria da festa. Os homens tocavam instrumentos, cantavam, as mulheres dançavam em volta deles e batiam palmas. O riso e a gargalhada contagiaram-na. Uma parte de si chocava-se com a intimidade, as festas que elas lhes faziam, o roçar das saias compridas, o bambolear das ancas. Sentia, porém, no corpo, uma espécie de formigueiro, um calor que lhe invadia o ventre. Quase tinha vontade de se enfiar por entre o mulherio e ceder ao calor da festa.

Horrorizada com os próprios desejos, recordou a euforia de Ana. A irmã mais velha não teria hesitado, já estaria no meio da festa dançando com as mulheres. Talvez o tivesse feito muitas vezes, Francisca não sabia.

Deu um pequeno grito quando sentiu a mão no braço.

– O que fazeis aqui, Francisca? – a voz de Vera era de surpresa e zanga. – O vosso cunhado sabe onde estais, a estas horas da noite?

– Assustaste-me. – murmurou, levando a mão ao peito.

A nómada não respondeu e fez-lhe um gesto para que a seguisse. Francisca, habituada a ser a menina bonita de todos os lugares por onde passava, sentiu-se subitamente invisível. A rapariga à sua frente, habitualmente vestida com um vestido coçado e um lenço na cabeça, vestia-se de cores e folhos e dourados por todo o lado. O cabelo negro estava solto e caia-lhe em cascata ondulada e os olhos mel estavam pintados. Esqueceu-se de que estava ao lado da amiga e pareceu-lhe que Vera era arraçada de felina. Uma mulher estranha, antiga e misteriosa.

Sentiu o medo do desconhecido. Vera largara a pele da aldeã e era agora habitada por essa estranha magia oriunda do povo nómada. Naquela noite, não a conhecia. Talvez fosse o certo, talvez fosse propositado. Era mais fácil confiar na magia daquela desconhecida do que da amiga de todos os dias.

Colocaram-se atrás de uma carroça e Vera estendeu-lhe a mão aberta. Viu um fio de cetim, com uma pequena medalha amarrada, onde aparecia a figura de uma santa que Francisca não conseguiu reconhecer. Junto à medalha, uma minúscula bolsa do mesmo tecido que o fio, com algo dentro.

– São meramente flores e plantas. – explicou Vera. – E a santa é a nossa padroeira. O amuleto simboliza a fé. As plantas, a intenção. É pequenino, não se notará com os vestidos. Posto ao pescoço, ainda que uses decotes, a medalha e a bolsa ficarão escondidas entre os seios, não darão nas vistas.

Sem pensar duas vezes, Francisca colocou-o ao pescoço, com um grande sorriso.

– Obrigada, Vera! – a voz era de alegria. – Isto vai concretizar os meus sonhos.

– Não me agradeceis antes do tempo. – avisou a jovem. – Lembrai-vos de que os desígnios das estrelas nem sempre são aqueles que habitam a nossa fantasia.

Estremeceu com as palavras da nómada e soube, sem conseguir explicar, que nunca mais nada seria igual.

Dias de luz

Moinhos

Hoje despertei com a plenitude na alma. Sabe bem um dia fora do tempo e da rotina.

Um dia para organizar, arrumar, encontrar escritos antigos e que me trouxeram de volta vários eu’s, de tantos momentos e diferentes formas. Formas à parte, revi-me nos mesmos valores e na mesma essência. A parte imutável em mim sempre soube quem sou e o que estou aqui a fazer.

Organizar livros e cadernos. Numa manta no chão, a um canto do escritório, a minha filha mais nova brincava com as bonecas e a sua vozinha alegre e profundamente distraída pelo seu mundo interno eram o meu ruído de fundo. O sol entrava e aquecia-nos o corpo e a alma.

Às vezes, é preciso muito pouco para se ser muito feliz.

Às vezes, aquilo que soa a importante lá fora parecem os gigantes de D. Quixote… aqui dentro de mim, neste dia perfeito, o que se passa lá fora pareciam-me somente moinhos.

E cá dentro está melhor….