Amuleto da sorte

cigana

Francisca saiu sem ser notada. Os criados continuavam na azáfama habitual de arrumar a cozinha e alguns já tinham saído ou tinham-se recolhido. O dia começava cedo e a hora do recolher seguia o mesmo rumo. Com um dos seus mais simples vestidos, uma trança nos cabelos claros e a capa de lã castanha, Francisca passara despercebida por entre os corredores, até se escapulir para o fresco da noite.

Em silêncio, caminhou até ao acampamento. Durante grande parte do ano, o chamado acampamento não passava de um amontoado de casas em pedra, construídas de propósito para os nómadas. Mas na época de calor, os viajantes chegavam nas suas carroças coloridas, cheias de tecidos, crianças e cães barulhentos. Montavam as tendas, faziam fogueiras noturnas e as terras transformavam-se numa verdadeira confusão.

Como toda a gente à sua volta, tinha sido criada com medo daquele povo estranho, sempre em viagem, com o comércio e a magia no sangue. Os padres aconselhavam-na, inclusive, a não olhar para eles. Os senhores da casa não os temiam de todo e a sua irmã, então, sempre os adorara. Talvez essa fosse a razão pela qual o cunhado lhes tivesse permitido o usufruto das terras. Não sabia quais os seus motivos e não perguntara. Quando se mudara para a casa, os nómadas há muito lá habitavam e Ana já falecera.

O cheiro de madeira queimada chegou-lhe ao nariz, ao mesmo tempo que a lufada de fumo cinzento lhe causou ardor nos olhos. Ajeitou melhor a trança, debaixo do capuz. O cabelo claro poderia dar nas vistas.

Os cânticos alegres e os batuques envolveram-na na alegria da festa. Os homens tocavam instrumentos, cantavam, as mulheres dançavam em volta deles e batiam palmas. O riso e a gargalhada contagiaram-na. Uma parte de si chocava-se com a intimidade, as festas que elas lhes faziam, o roçar das saias compridas, o bambolear das ancas. Sentia, porém, no corpo, uma espécie de formigueiro, um calor que lhe invadia o ventre. Quase tinha vontade de se enfiar por entre o mulherio e ceder ao calor da festa.

Horrorizada com os próprios desejos, recordou a euforia de Ana. A irmã mais velha não teria hesitado, já estaria no meio da festa dançando com as mulheres. Talvez o tivesse feito muitas vezes, Francisca não sabia.

Deu um pequeno grito quando sentiu a mão no braço.

– O que fazeis aqui, Francisca? – a voz de Vera era de surpresa e zanga. – O vosso cunhado sabe onde estais, a estas horas da noite?

– Assustaste-me. – murmurou, levando a mão ao peito.

A nómada não respondeu e fez-lhe um gesto para que a seguisse. Francisca, habituada a ser a menina bonita de todos os lugares por onde passava, sentiu-se subitamente invisível. A rapariga à sua frente, habitualmente vestida com um vestido coçado e um lenço na cabeça, vestia-se de cores e folhos e dourados por todo o lado. O cabelo negro estava solto e caia-lhe em cascata ondulada e os olhos mel estavam pintados. Esqueceu-se de que estava ao lado da amiga e pareceu-lhe que Vera era arraçada de felina. Uma mulher estranha, antiga e misteriosa.

Sentiu o medo do desconhecido. Vera largara a pele da aldeã e era agora habitada por essa estranha magia oriunda do povo nómada. Naquela noite, não a conhecia. Talvez fosse o certo, talvez fosse propositado. Era mais fácil confiar na magia daquela desconhecida do que da amiga de todos os dias.

Colocaram-se atrás de uma carroça e Vera estendeu-lhe a mão aberta. Viu um fio de cetim, com uma pequena medalha amarrada, onde aparecia a figura de uma santa que Francisca não conseguiu reconhecer. Junto à medalha, uma minúscula bolsa do mesmo tecido que o fio, com algo dentro.

– São meramente flores e plantas. – explicou Vera. – E a santa é a nossa padroeira. O amuleto simboliza a fé. As plantas, a intenção. É pequenino, não se notará com os vestidos. Posto ao pescoço, ainda que uses decotes, a medalha e a bolsa ficarão escondidas entre os seios, não darão nas vistas.

Sem pensar duas vezes, Francisca colocou-o ao pescoço, com um grande sorriso.

– Obrigada, Vera! – a voz era de alegria. – Isto vai concretizar os meus sonhos.

– Não me agradeceis antes do tempo. – avisou a jovem. – Lembrai-vos de que os desígnios das estrelas nem sempre são aqueles que habitam a nossa fantasia.

Estremeceu com as palavras da nómada e soube, sem conseguir explicar, que nunca mais nada seria igual.