Abraçar-me

 

Abraçar-me shugem ser um bom dia. Sem ser o dia certo. Sem ter o que celebrar.

Nem sempre o consigo e muitas vezes nem me lembro de o fazer. Fica a zanga interna. A sensação do “podia ter feito melhor”. O dia que teve altos, mas cujos baixos apagaram a luz e nada deixaram.

Geralmente fica o discurso interno sobre as mil coisas que eu sabia fazer diferente. Ou as escolhas pelas quais não optei. Ainda o escuto, em sussurros, em apertos e pequenas descamações na pele e nos espaços vazios da alma. Podia escutar mais… ou evadir-me numa escapadela mental que me permitisse estar longe de mim até as vozes se calarem.

Só que, por um acaso somente, recordei-me de quem sou. E de onde estou. E do que quero. Um só instante que me permitiu abrir-me os braços e guardar-me dentro. A voz mais sábia que me sussurrou: eu sei quem és. E ser quem és chega. E amo-te, não importa o resto. Estou aqui para ti.

E chegou-me. O abraço que me dei e poderia não ter dado. As palavras que me disse e poderia não ter dito. A escolha de aceitar não ser perfeita. E ficar comigo.

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Mulheres

No dia dedicado às mulheres – e não entrando na discussão vã de isso ser bom ou mau – pergunto-me sobre o feminino.

Não há respostas fáceis. Trabalhar o feminino não é assim tão diferente de trabalhar o masculino, a criança interna, a educação ou seja lá o que a nossa alma pede.

Trabalhar o feminino é estabelecer um relacionamento firme, leal, profundo, verdadeiro e enraizado connosco mesmas. E, ao fazê-lo, descobrimos a forma de ser mulher. As formas circulares de ser mulher, uma alma livre colorida e obscura, uma feiticeira que se combina com a mulher que leva os filhos à escola.

Gosto de mulheres reais. Aquelas que se atraem pelas vestes do feminino. Mas não são as vestes que as tornam mulheres. As mulheres reais limpam a casa, fazem contas à vida para que o dinheiro dure até ao final do mês, explodem de cansaço e tensão nos dias mais duros, adoram fins de semana de pijama no sofá.

As mulheres reais não dançam todos os dias em saias rodadas, com coroas de flores na cabeça. Não se sentem diferentes da vizinha do lado, da mãe, da irmã, da colega de trabalho.

Gosto de mulheres que vivem no mundo, que são tocadas por ele. Nos dias maus, com lágrimas nos olhos. Nos dias bons, de braços abertos para a vida e para o que lhes toca viver.

Gosto quando estas mulheres encontram espaço para ser, para estar. Quando se partilham nos mais profundos caminhos da alma, ou nas receitas de chá de gengibre. Quando escrevem acerca dos sonhos e da vida. Quando vestem as vestes que não as definem, mas que as enfeitam. Porquê? Porque podem.  E nada mais…

Gosto de mulheres que encontram espaço e tempo para estar menstruadas, mesmo quando o mundo não pára e as tarefas se amontoam. Que descem à profundeza das suas cavernas e permanecem no submundo. Por um tempo. E depois sobem até à vida comum, voltando a fazer cozinhados de domingo, pagamentos da luz e lavagem de roupa.

Gosto de mulheres que se dão  à vida. Às outras mulheres. Que honram a sua linhagem, e os caminhos que não seguiram.

Que conhecem os sussurros profundos das suas peles. Dos ecos das suas estórias. E que cantam baixinho, por entre linhas e pontos, à parte de si que o mundo não pode domar.

 

Dinamene

Eu tenho uma irmã com alma de vento. Os seus cabelos claros, têm reflexos esverdeados nos dias em que se sente mais selvagem.
Tem olhos de alma antiga e a serenidade nos traços.
Tem braços de mãe, daqueles em que descansamos com a certeza de que a tempestade não entra. Assim é para os filhos… e para o mundo inteiro.
Ela é tranquila, conhece o poder do tempo e crê – inabalavelmente – que a vida trará sempre coisas boas, que todos têm um fundo brilhante e que, em caso de dúvida, o que tem a fazer é amar. Porém, a sua alma de vento leva-a em viagens, emoções, desatinos e devaneios. E escreve. Escreve a vida em contos perfumadas de todos os dias.
É a minha irmã com alma de vento. E ela não o nota, mas eu conheço bem as suas tempestades, só pelos reflexos esverdeados dos seus cabelos.

Irlanda – onde me perdi sem me perder

Da chegada, ficou-me o  avistar da ilha através da janela do avião. O mar e o verde – tanto verde! – que se via até não poder mais. Em nada diminuiu a expectativa, ou o que eu esperava encontrar. Foi sempre neste verde que o meu coração pousava, desde que o sonho surgiu.

Aquilo que impacta logo, assim que se põe os pés nesta terra é o gaélico. Todas as placas são bilingues e o gaélico é inseparável do mágico, do místico. Pelo menos para mim. Por isso, cada placa é um estímulo a uma língua e um tempo que, um dia, me fez ter vontade de viajar para aqui.

Desde o primeiro dia, onde a ansiedade por não sei bem o quê, imperava, até ao último, nada me desfez a fantasia, a expectativa, aquilo que era um sonho por cumprir desde a adolescência.

“Toda a gente quer vir para a Irlanda” – disse-me o Rory, um dos guias com quem me cruzei. – “Pelo que sei, não é assim tão diferente do resto da Europa. Mas todos me dizem que é diferente. Que tem algo…”

“Sim… – respondo. – “Também não saberia explicar-to de outra maneira. A Irlanda tem algo…”

É difícil explicar uma viagem sem nada que explicar.

Talvez o silêncio em cada esquina, independentemente do barulho externo. A terra e o seu cheiro que falam connosco e nos contam estórias sem palavras. Os castelos, assombrados ou não, em ruínas ou recuperados, cheios de séculos e de sangue… cheios de deuses e de ancestralidade.

As estórias que ouvi, vinham misturadas de verdade e fantasia, cristianismo e paganismo, como se tudo tivesse lugar na alma daquela gente. Como se ir à missa e ter o cuidado de não tocar nas fairie-trees fizesse parte do dia-a-dia.

Na história do povo, contam-se torturas e invasões, guerras e pobreza. E, no entanto, há música e sorrisos, dança e educação. Toda a gente está pronta a contar uma estória, a beber uma cerveja e dizer uma piada. A vida é uma celebração.

Dublin, Galway, Kelarney… as cidades são belíssimas, saídas de contos de fadas, com o verde, os seus rios e as estórias.

A meio caminho lá parei para beijar a pedra do Castelo de Blarney, para a vida me garantir 7 anos de eloquência.

Mas é no nada que a Irlanda me cantou à alma. Na humidade fria da neblina, nos penhascos agrestes, nos montes e vales de verde e mais verde até perder de vista.

É impossível não nos escutarmos num local assim. E perdendo-me em cada oportunidade, fui-me encontrando todos os dias.

Os corvos acompanham-nos em cada passo, nada silenciosos, mas pertencentes ao antigo, e à magia.

A não esquecer a manhãs geladas a iniciar num qualquer Starbucks, com um capuccino na mão e o som dos Florence and the Machine a acompanhar  o quente e aconchegante sotaque irlandês.

E a biblioteca do Trinity College. Podia acampar ali por uns meses….

Voltei mais inteira, apesar de metade de mim ainda lá estar.

 

Daquilo que é antigo

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A história evoca-me estória. Desde sempre, ainda antes disto se ter tornado consciente. Gosto de ouvir os anciãos contar pedaços da sua existência, recordando os quilómetros que percorriam a pé para chegar à escola, quando iam à escola. Ou as viagens de Beja a Lisboa, montados num burro. Ou a apanha do milho, entre fogueiras noturnas e beijos roubados ao luar. Beijos no rosto, que os beijos na boca eram reservados para assuntos sérios.

Gosto de estórias épicas e míticas, de símbolos e grandes demandas.

E gosto de vilas e cidades velhas. Antigas. Ruelas com calçada desconjuntada, cheias de sussurros por entre os meus passos, estradas de terra batida e paisagem a perder de vista. Gosto de adros de igrejas pequeninas. De janelas grandes e cheias de estória. De arcadas, de portas ogivais, de fachadas trabalhadas, de canteiros floridos. Gosto de anciãs de lenço na cabeça, sentadas em cadeiras de vime, à porta de casa. De nomes de ruas perfeitas. Rua dos Nobres. Largo do Paço da Rainha. Rua dos Correeiros. Terreiro do Paço.

Caminhar numa cidade antiga é evocar em mim algo que vai muito além das palavras. Sinto-me antiga também, envolta em memórias que podem ser minhas, da própria cidade, ou somente da existência em si. Caminhar numa rua de calçada antiga, com casas caiadas a branco com cunhais de portas e janelas pintadas a azul ou amarelo, é escutar a eternidade desse lugar, sentindo os passos de tantos que caminharam antes de mim. Ouvir-lhes o som das vestes compridas, sentir o odor do petróleo para os candeeiros, do peixe e da fruta nos mercados.

E há outro aroma de eternidade, que só as antigas vilas sustêm. O cheiro do entardecer, numa tarde de Verão, quando o mundo parece parar e o bater do nosso coração pouco difere do bater do coração da própria vida.

Nonsense, ou os dias de pernas para o ar

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As últimas horas têm sido de um nível de absurdo que vale a pena descrever. Ou simplesmente rir. Quem sabe, ambos…

… desde que cheguei a Espanha sinto que entrei numa realidade alternativa, num mundo paralelo onde o nonsense é Rei e eu… claro está, uma distinta Princesa do não sentido. Se é que isto faz algum…

A manhã de ontem começou bem, com o arrumar das últimas coisitas para a viagem, pc, carregador, coisas de higiene, uma muda de roupa para o dia seguinte… “que raios? como é que uma mala para 36 horas pesa tanto como as que faço para 5 dias?” Mas assim é, de facto.

Boleia divertida para o Aeroporto, brincando com as tranças da minha amiga. O marido chamava-lhe Heidi. Eu discordava completamente, pois Gretchen assentava-lhe tão bem…

O café no aeroporto, forte, amargo e quente. Que bem me soube. Desde que larguei o café como vício, a cada vez que bebo um, tenho uma esperança enorme que seja perfeito e reconfortante. Foi.

E a partir daí começou toda a aventura.

O avião daquela companhia, conforme me lembrava de outros anos, parecia a Carreira dos subúrbios que ia de Almada para a Costa, passando pela Trafaria e conseguindo apanhar todos os buracos da estrada.

No céu não há buracos… só os negros, aparentemente. Mas aquele aviãozito, só com dois lugares de cada lado, conseguiu apanhar toda a turbulência existente,  ao ponto de me ter recordado porque é que não ando de montanha russa. Saí em Madrid aos tropeções, enjoada e com uma dor de cabeça que não se aguentava.

Apanhei o metro e segui, encostada à mala e a brincar com o telemóvel. Apanhei um daqueles senhores simpáticos, que acham que as mulheres gostam de ser abordadas no metro e, mesmo com um olhar 39 e a indiferença total, mantém a motivação e a confiança que – penso eu – lhes daria um sorriso convidativo. Que, definitivamente, eu não dei. Ainda por cima, falava em português… ou seja, tive o “desprivilégio” de lhe entender todas as palavras.

Saí para apanhar o comboio e cheguei à estação no momento em que o meu comboio estava a sair. Mais 40m de espera. Continuei a brincar com o telemóvel. E não é que o príncipe absolutamente desencatado continuava ali?

40m depois, vejo no ecrã que o meu comboio vai chegar num minuto.

“Finalmente. Que bom que está a chegar. Não só vou chegar a horas como me vou livrar deste traste que está para aqui.”

E enquanto tinha estes profundos e sublimes pensamentos, perdi-me sabe Deus onde. E dei-me conta de que me tinha perdido quando as portas do comboio fecharam. Perdi o comboio enquanto esperava por ele!!!!!

Decidi que era fome e fui comer… uma sandes daquelas fantásticas, que é de algo que acaba por ser uma das únicas palavras espanholas que não sei o significado. Não faz mal, força, estamos aqui para arriscar. E arrisquei, porque também não consegui distinguir a que é que sabia. Comi e calei, literalmente.

E 40m depois, finalmente apanhei o comboio. Eu e o príncipe desencatado, que deve ter decidido ir comigo para qualquer lado, pois já tinham passado – 2 vezes – todos os comboios possíveis que passavam naquela linha.

Finalmente saí. O stalker decidiu ficar no comboio. É compreensível. Las Zorreras não é definitivamente uma alternativa para passear.

Respirei fundo, assim que a porta fechou, e segui o meu caminho.

Reunião de burocracias, necessárias mas fatigantes até aos ossos e a marcação de 4 reuniões para o dia seguinte. Fantástico. Tudo antes das 16h, pois parece que ainda tenho um avião para apanhar hoje. A carreira nº2.

Uma caminhada de 2 horas, com um pôr do sol magnífico, uma vista de montanhas com neve e uma lua brilhante que despontava. E encontrei ali a serenidade e a alegria.

Ainda bem… porque a insónia instalou-se assim que me meti na cama e, com duas horas de sono, só me dá vontade de rir – e também de chorar – ao pensar nas, ainda, três reuniões que me faltam…

Percebe-se que acordei cheia de atenção plena.

Abro o frigorífico para tirar o boião de iogurte a meter nos cereais e, depois de o ter feito, apercebo-me de que era queijo philadelphia. NUNCA tentem comer cereais com queijo philadelphia. É um conselho sábio e experiente. Acreditem…

Duas chávenas de café depois aqui estou a contar a estória. E a esperar chegar a casa são e salva. 🙂

Dança de opostos… ou nem por isso…

IMG_1043Ontem, depois de uma conversa sobre “o que é que eu faço na vida”, ouvi o comentário: “Bem, tu…. mas quantas coisas diferentes é que tu fazes?”

Sorri, dei uma resposta evasiva, porque não era o momento, nem o tempo. Mas a resposta dentro de mim foi um silêncio daqueles que fermenta qualquer coisa por dentro. Um conversa sobre cursos e aulas e o feminino e o coaching e sabe Deus que mais… E dentro de mim, só me apercebi há pouco, não havia grande divisão.

Recordo-me de um tempo em que tudo era dividido. Às segundas e quartas, eu era uma coisa. Às terças dedicava-me a ser outra. E por aí adiante. Sem conexões pelo meio. Sem deixar que um mundo se entranhasse no outro. Sem emaranhares… limpo.

E se calhar estava certo. Era o tempo.

Agora, não é bem a mesma coisa. Mas é quase… Todos os campos da minha vida se entrelaçam uns nos outros, todos se conhecem, todos me tratam por tu. Exactamente como o dia de hoje, em que se acorda com um sol brilhante e duas horas depois está prestes a cair uma carga de água, sem nos termos sequer apercebido da mudança.

Nas várias situações em que me vi num grupo em que ninguém ou percebia português, quando se faziam exercícios de escuta activa, eram os momentos em que me permitia falar na minha língua materna. E apesar de, fora do contexto, nunca ninguém perceber nada do que eu dizia, nesses momentos, ninguém perdia uma palavra sequer. Porque, e é verdade, quando sai de um determinado ponto de nós, a linguagem do coração é universal. E as palavras deixam de ter nacionalidade.

E é o que sinto, neste momento… hoje… agora, em relação ao que vivo e ao que faço. Podem ser linguagens diferentes, mas não deixo de ser eu, por isso não deixa de ser só uma linguagem. Cada espaço único não deixa de ser invadido por tudo o mais que sou.

E isto é válido para tudo o resto. Posso coabitar perfeitamente com uma tristeza profunda e um sentimento imenso de gratidão e sentido. Ou mesmo de felicidade. Estranhamente, nem sequer são paradoxais.

A dança da dualidade e da unidade fazem-se sentir em silêncio. E sinto-me aqui, no olho do furação. Isto também sou eu.

Ou então é a bipolaridade que se instala… 🙂 E não é que cá dentro, tudo faz sentido?

Paraíso…

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Acabei de num livro, acerca de uma infância no Algarve: “Declaro que conheci o Paraíso, quando o paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocados, e os homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava.”

De imediato senti vontade de escrevinhar “E eu também”.

E por segundos que soaram a eternidade, rebolei nas dunas e entretive-me a fazer castelos para as pobres carochas que me caiam nas mãos; fui pescar na ria com uma cana pequenina, feita para mim pelo meu avô. Não sei o que é feito dela, mas como regozijava de alegria quando sentia sob as minhas mãos a cana estremecer e ser puxada para a água. O meu avô, com a sua paciência infinita, lá me ajudava a tirar o peixe que eu insistia em não deixar sair de vista, pois tinha de ser aquele que eu ia comer.

Vi-me a correr em bando, desgrenhada e descalça, entre o abafado calor, a maresia e a areia escaldante nos pés. Meti-me debaixo dos barcos que os pescadores voltavam na areia, e onde passávamos tardes inteiras a contar estórias, e a inventar tantas outras.

E havia as noites…

Calçavam-se os sapatos, por fim. Jogávamos às escondidas e valia tudo. Ou sentávamos-nos no muro e conversávamos, como gente grande.

Os adultos iam-nos jogando um olhinho, enquanto se sentavam à fresquinha, sinónimo de trazer as cadeiras cá para fora e ficar à conversa.

Era um Verão maior. Um verão que durava mesmo o verão inteiro. E que parecia uma vida. Um verão que, à noite, era sempre magicamente, esplendorosamente, estrelado.

Não era preciso muito para se ter uma infância feliz.

40

40-h

Um número grande. Cheio. Parece idade de gente adulta.

Foi rápida a chegada, apesar de tantos trilhos emaranhados, viagens intermináveis e florestas densas e profundas. Rápida, mas ainda assim cheia de tempo e de tempos. De estórias. Umas, cheias de mim. Outras, onde nem me vejo. Mas todas minhas.

E quando me olho e penso que tenho 40 anos, quase me dá vontade de rir. Não me sinto com os 40 anos que imaginava que as pessoas tinham, quando eu tinha 20. Nem perto. Mas também não sinto com menos do que isso. Sinto-me com estes 40. Meus. Vividos e conquistados a ferro e fogo. Descobertos, semeados. E destes 40, gosto. Sou eu. São meus.

Têm a forma do meu reflexo. Dão-me permissão para brincar comigo mesma. E para me levar a sério. Deixam-me amar perdidamente e com tudo o que tenho e tudo o que sou. E não me perder de mim mesma. Levam-me ao que sou, agora, sem pensar no que posso ou não ser amanhã. E está bem, por agora.

Chego aos 40 anos com alguns ciclos a fechar, coisas novas a abrir e esta tão nova e extraordinária relação comigo mesma. Dou-me a mão, a cada passo. Em todos eles.

Não sei se “a vida começa aos 40”. Sei que eu caminho por percursos novos. E gosto das minhas pegadas.

Caminhemos…

Dia 1

IMG_0772Fui ver o mar.

É um hábito, uma necessidade, uma alegria…

O primeiro dia do ano tem esta magia própria para quem gosta de acordar cedo. Especialmente em dias como estes, frios e cheios de sol. Há uma paz e um silêncio que invadem tudo. Um sentimento de solidão muito diferente de isolamento. Estar comigo mesma…

É um silêncio cheio, lembra-me a expressão “vazio fértil”. Como um mundo parado e pronto a despertar para infinitas possibilidades. E não tenho vontade, nem preciso de o colocar em andamento. Basta-me desfrutar do instante antes do movimento.

Basta-me o sol no rosto, os meus passos desenhados na areia e os salpicos salgados que me acariciam a pele. Basta-me sentar e respirar. Não pensar em nada elaborado, somente existir. E que luxo é, permitir-me esse tempo em que me basta existir.

O ano passado não vi o mar no dia 1. O ano passado bastou-me estar viva. Acabava de sair de um ano em que tinha perdido pedaços do corpo e identidade.

O ano passado perdi certezas, ilusões, o cabelo, vitalidade, sonhos e confiança. Aprendi a caminhar cada um dos meus dias sem olhar para mais do que isso. Aprendi a ser forte quando estava frágil e a sentir-me frágil, quando já estava cansada de caminhar no deserto. Mas caminhei…

Paradoxalmente, ganhei outras certezas, humildade, rendição, amor por mim para além de tudo o que achava ter conquistado, auto-respeito, maturidade e, também, confiança. Não sei bem confiança em quê. Se em mim, se no Mistério, se nesta dança que nos leva a todos, nem sempre no ritmo que desejaríamos.,, a verdade é que quando olhamos realmente para a música, não temos como não nos render…

Entro neste ano outra mulher. Sem deixar de ser a mesma. Mais dorida… talvez. Com maior capacidade de desfrutar?Certamente. Com menos medo de arriscar? Em absoluto.

Com mais para dar e receber? Sei-o e sinto-o.

Não sei o que o ano me trará, mas dou por mim a sorrir. Gosto. Espero o melhor da vida. Assim como espero de mim o meu melhor. Não sei o que o ano me trará, mas sei o que me trago.

Trago doçura em mim. Capacidade de me suster e amparar. Silêncio interno e força. Amor e alegria. E, na verdade, tudo o resto.

Trago-me inteira.